Um texto sobre viajar e viver intensamente

Escrevi este texto aqui lá no site do Worldpackers, plataforma que me ajuda a viajar sem gastar nada em acomodação. Como sempre gosto de compartilhar meus sentimentos, daqui pra diante também dividirei minhas experiências com os viajantes de lá, além dos meus leitores e amigos daqui 🙂

Minha história como viajante começou depois de uma demissão. Acreditei que era o momento perfeito de realizar a viagem pela Europa que eu sempre sonhei mas que nunca havia tido tempo, dinheiro e coragem. Eu estava com 26 anos, formada há alguns anos, reconhecida como uma boa profissional na minha área e em um relacionamento estável que rumava para algo mais sério ainda em seus próximos capítulos. Senti que se não fizesse a viagem naquele momento, talvez eu nunca mais teria a oportunidade e a coragem de fazer.

Mas, embora aquele parecesse o momento ideal, minha escolha tinha muito mais incertezas do que certezas. Como seria manter um relacionamento à distância? E se quando eu voltasse o mercado de trabalho não me aceitasse mais? Ou, pior, e se quando eu voltasse eu não aceitasse mais a vida pacata e “normal” de um trabalho de segunda a sexta-feira e uma vida “padrãozinho”?

Bom, é chegado o momento de eu citar um dos meus clichês preferidos (aliás, prepare-se, este texto contém diversos clichês): se der medo, vai com medo mesmo! Nunca pensei que eu seria a pessoa a dar esse conselho para os meus amigos e para as pessoas que me perguntam sobre as minhas viagens. Sempre, desde bem pequenininha, fui absurdamente medrosa. Daquelas crianças que se escondem atrás das pernas da mãe, sabe?

Já amadureci e mudei muito, principalmente desde que comecei a viajar sozinha, mas hoje entendo que isso faz parte da minha personalidade. Ou seja, sigo extremamente medrosa, mas a vontade de viver novas e inesquecíveis experiências me faz fechar os olhos e pular. Costumo dizer que o que tenho de medrosa eu tenho de impulsiva também, e é isso que me faz continuar andando, mesmo sem ter ideia de onde meu próximo passo vai dar.

Fazer planos é importante, principalmente para nós mochileiros que temos que nos organizar para fazer a grana render. Mas, o que aprendi viajando é que às vezes temos que afrouxar o cinto e nos tranquilizarmos: a vida vai tratar de nos levar exatamente para onde temos que ir.

Viver intensamente é sobre a liberdade de ser quem você é

Muito bonito esse clichê, né? A grande questão é: você sabe quem você é? Talvez a sua primeira resposta seja “mas é claro que eu sei, oras”. Mas, aqui entre nós, será mesmo que você sabe? Eu, até pouco tempo, achava que manjava tudo sobre mim mesma, mas eu não sabia de nada. Aliás, acho que ainda estou descobrindo quem eu sou, todo dia um pouquinho.

Estou viajando ininterruptamente há 6 meses e às vezes ainda é um desafio me apresentar para alguém que conheci sem me prender nos padrões que estamos acostumados. “Tuani, 28 anos, brasileira, jornalista, blábláblá”. Não mais. Hoje eu sou Tuani, oficialmente e com muito orgulho uma pessoa sonhadora, um tanto introspectiva, outro tanto um pouco maluca, amante de um monte de bandas e caçadora de experiências únicas.

É claro que eu não vou sair despejando esse monte de informação no momento que eu recém conheci alguém. O que eu quero dizer com isso é que não é o nosso país ou a nossa profissão que definem quem somos. E entender isso é um dos passos iniciais e essenciais para alcançarmos a liberdade.

Eu sei, não é fácil nos libertarmos de uma vida construída em cima de delimitações de uma sociedade. Vai mostrar esse texto para os seus pais pra ver se eles não vão achar uma baboseira só.

No fim das contas, viajar acaba se conectando diretamente com esse lance de se conhecer e se libertar, principalmente porque precisamos sair da nossa rotina para conseguirmos fazer diferente. Aqui entra outro clichê: se continuarmos fazendo tudo sempre igual, teremos sempre os mesmos resultados.

Não estou dizendo que você precisa largar tudo e viajar para finalmente se encontrar e se sentir livre. Você pode tentar buscar isso com meditação, arte, exercícios ou sei lá o que mais. Mas eu não tenho dúvidas de que ter um período sabático vai ter um efeito certeiro.

Isso rola por diversos motivos. Além de se distanciar da sua rotina repetitiva, ao decidir pegar a estrada você precisa assinar os termos de uso: você vai passar muito tempo com você e com os seus pensamentos. Tem certeza que deseja continuar?

Sou total defensora de passar um tempo só. Já aviso que não é fácil, claro. Muita gente não suporta a ideia de ficar sozinho e, quando isso envolve passar por perrengues e novos contextos desafiadores, pode ser ainda mais difícil. Na primeira dificuldade que enfrentamos, parece que tudo vai desmoronar.

Eu já estraguei meu celular no terceiro dia de uma viagem que duraria 6 meses, tomei pé na bunda de namorado estando sozinha em Dublin, perdi voo no mesmo dia que fui demitida e outros tantos contratempos já rolaram.

Quando estamos longe de casa e fora da nossa zona de conforto, os problemas tomam proporções muito maiores do que realmente têm. O lance é que tudo isso faz parte de viver intensamente — ou você realmente achava que viajar era só postar um monte de fotos incríveis no Instagram?

Escolha viver tudo ao máximo

Se é para deixar sua vida confortável para trás e colocar uma mochila nas costas rumo ao mundo, que seja pra viver tudo na potência máxima. Período sabático é pra gente espremer e tirar dele todos os aprendizados que pudermos.

Mesmo sendo uma medrosa de carteirinha, nos últimos 6 meses eu tive várias primeiras vezes que sempre achei que não teria. Eu me permiti experimentar coisas que sempre achei que não iria, de comidas estranhas a relacionamentos impossíveis. E isso tudo me ajudou a me conhecer melhor e a finalmente me sentir livre — mesmo que fosse para reafirmar que não gosto de um sabor ou para descobrir um novo interesse em um estilo musical nunca imaginado.

Quando fizer as malas, deixe os preconceitos e pré-julgamentos do lado de fora delas. Esqueça eles em casa e, de preferência, coloque todos no lixo. Minha principal experiência como mochileira é na Europa e ao mesmo tempo que muitas coisas são semelhantes com o Brasil, outras tantas são surpreendentes.

A melhor surpresa que tive foi a leveza e falta de cobranças que as pessoas aqui, em geral, possuem. Quando você conhece alguém, você conversa sobre dezenas de coisas até chegar em assuntos como profissão ou faculdade que você fez. Ninguém aqui te julga por você ter quase 30 anos e estar em crise em relação ao seu trabalho. Tá tudo bem e você só precisa estar em paz com você mesmo!

As pressões da sociedade existem, mas elas não podem te impedir de ir atrás dos seus sonhos. Nesse exato momento eu escrevo sentada em um hostel em uma cidadezinha com 8 mil habitantes na Escócia. Eu não tenho dúvidas de que um monte de gente que me conhece no Brasil deve ficar falando de mim, se questionando o que é que estou fazendo da minha vida.

O que eu descobri é que a gente se importa tanto com o que os outros vão pensar ou dizer porque a gente faz exatamente o mesmo. O fato é que ninguém sabe o que estou vivendo, os problemas que estou enfrentando, os caminhos que estou abrindo e os planos que estou fazendo para o futuro. Ah, e se não tivesse planos, também estaria tudo bem.

O que eu mais testemunho na vida de backpacker e que mais me inspira em seguir viajando é ver que os próximos passos vão se construindo de forma muito natural e despretensiosa. As coisas que menos planejei foram as mais bacanas e as que organizei nos mínimos detalhes nunca saíram como eu imaginava.

No fim, são todas essas surpresas, medos, angústias e incertezas que ajudarão a compor a história da sua vida, aquela você vai querer contar para os netos ou até escrever um livro.

 

P.S.: se você ficou com curiosidade de saber, informo que, de fato, minha vida nunca mais foi a mesma. O namoro que ia virar casamento acabou e eu nunca voltei a ter um trabalho que tivesse que bater ponto no escritório. Em contrapartida, meu mundo expandiu tanto que não caberia em um só post aqui.

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