Verdades que os poemas não escondem

Há cerca de dois meses tenho seguido uma rotina matinal sagrada: acordo, escovo os dentes, tomo meu café da manhã, abro meu Instagram e posto um poema de Rupi Kaur no meu Stories (às vezes faço outras coisas entre tudo isso, mas vocês entenderam). Todos os dias é uma facada diferente sobre temas doídos como relacionamentos, traumas, amores e dissabores.

Os quatro capítulos do livro Outros jeitos de usar a boca resumem bem do que a obra se trata:

a dor

o amor

a ruptura

a cura

Muita gente deve ter pensado coisas como “nossa, que mina mal amada” ou “huuuuum, olha ela de novo dando indireta pro ex”. Desde o início eu soube que esses pensamentos poderiam acontecer. E é por isso que muita gente não gosta de poesia, pois acredita que aquilo deve fazer sentido diretamente pra elas, quando nem sempre vai ser assim. É também por isso que a poesia moderna da Rupi Kaur é tão forte: ela te toca lá dentro e faz doer até as feridas que você não tem.

Comecei com essa ideia ao iniciar a leitura do livro e perceber que mais pessoas precisavam ler aquelas palavras. Essa é uma obra que você pode tranquilamente terminar em meia hora, mas, o processamento de tudo que lá está escrito não é tão simples assim. Por isso as doses homeopáticas. Todo dia uma gotinha de dor alheia, a dor na escrita, para curar as nossas próprias dores.

Eu achei que até o final do livro eu já teria me matado mas, pelo contrário, todos esses pequenos conjuntos de palavras repletas de significado são o meu remédio diário. Tem dias que eu não sinto nada ao folhear o livro. Tem dias que meia página tem o poder de me derrubar, choro tanto que a cara fica inchada o resto do dia.

Outra coisa que me preocupa é quando esses poemas não forem mais inéditos para mim. Toda experiência, quando vivida pela primeira vez, é sempre mais intensa e impactante. Sou uma pessoa extremamente sensível e já estou triste só de pensar que o sentimento não será novamente o mesmo quando eu terminar o livro e começar a ler ele de novo. Isso mesmo, eu sou esse tipo de pessoa que sofre porque o choro não será o mesmo. Isso porque, a leitura da primeira vez, punhalada pura e brutal, será, na segunda vez, como colocar merthiolate em uma ferida fechada.

Às vezes eu acho que eu gosto de sofrer. Faz parte de mim. Quando eu não tenho com o que me preocupar e chorar, como por exemplo no momento atual da minha vida, que me encontro totalmente feliz e em paz, eu vou lá e escuto músicas tristes, leio poesias torturantes e assisto a filmes destruidores de mentes.

Mas olha aí eu me perdendo do assunto principal deste texto: os outros leitores. Não tenho muitos seguidores no Instagram, porque há alguns meses entrei numas neuras de não querer que as pessoas soubessem da minha vida. Então, apenas um seleto grupo de pessoas está lá. Poucas pessoas veem as coisas que compartilho. Poucas pessoas leem as poesias diárias de Rupi que posto. Mas, proporcionalmente, são muitas as pessoas que me respondem por inbox dizendo frases como:

“nossa, esse doeu”

“bah, muito verdade”

“que livro é esse? Adorei”

“esse bateu forte aqui dentro”

“isso é tão real”

“que tapa na cara”

Tem poemas que são unanimidade na sofrência humana, o que me faz pensar muito sobre as pessoas e os relacionamentos. No fim das contas, esse projeto bobo e sem real intenção de provocar resultados me trouxe muito aprendizado, foi quase um estudo antropológico.

Aliás, foi não, ainda é e espero que assim seja até o final do livro. Ainda tem muita facada por vir, muitas lições a serem aprendidas.

Se você não conhece o trabalho da Rupi, vou deixar aqui embaixo 10 das poesias dela. Boa sorte.

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