O que acontece quando você compra a passagem mais barata?

Quando decidi ir embora antecipadamente da Escócia, eu sabia que pagaria um preço alto, literalmente, para comprar uma passagem de um dia pro outro. Avião, então, praticamente impossível de cogitar (até porque eu estava no fim do mundo e lá não tinha nem gente, imagina avião). Eia que hoje eu vim contar pra vocês qual o resultado de comprar a passagem mais barata, haha.

Pra vocês entenderem o cenário, peço que abram o Google Maps e digitem Ilha de Skye, na Escócia. Agora visualizem que eu decidi ir dali para Dublin, na Irlanda. Foi aí que descobri o maravilhoso site/aplicativo GoEuro, onde você coloca o seu ponto de partida e o seu destino final. Ele te mostra as melhores opções e os melhores preços.

Achei uma opção incrível por apenas 55 euros, o que comemorei muito. Era a opção mais barata e, logo, a mais demorada também. Mas tempo não era um problema pra mim, então eu decidi apostar nessa indiada. Agora começa a saga de 20 horas, isso mesmo, 20 horas entre Broadford e Dublin. Acompanhem:

O que acontece quando você compra a passagem mais barata 1

27/02 – 10h50 – Broadford (Escócia)

Esse era o horário do meu primeiro ônibus, que faria um trajeto de 20 minutos até Kyle of Lochalsh. Meu hostel era bem próximo do ponto do ônibus, mas o GPS me mandou pro lado oposto (leia-se: eu não sei interpretar GPS, confesso), o que me fez ficar 20 minutos de um lado pro outro com 45 Kg de bagagem.

27/02 – 12h08 – Kyle of Lochalsh (Escócia)

Depois de um breve trecho de ônibus, ainda empolgadíssima com as paisagens cheias de neve, desci onde o bilhete indicada. Agora restava saber onde era a estação de trem, então fui atrás de algum velhinho para me dar informação – esses pequenos vilarejos da Escócia só têm pessoas de mais idade, coisa mais fofa.

Me indicaram onde ficava a estação e aí comecei a fazer um trajeto de 300 metros com muito sacrifício e uma mala de duas rodinhas que começava a virar uma mala de uma rodinha. Cheguei na estação e foi aí que conheci um senhor maravilhoso que já contei pra vocês essa história linda (leia ou releia aqui).

27/02 – 14h47 – Inverness (Escócia)

Ao embarcar para Inverness, cidade do Monstro do Lago Ness e tal, mal sabia eu que viveria a viagem de trem mais bonita da minha vida. Ainda bem que meu vagão estava vazio, porque eu ficava indo de um lado pro outro pra olhar as paisagens dos dois lados das janelas. Confesso que chorei de alegria, não sei nem colocar em palavras o quanto aqueles lugares me encheram os olhos.

Ah, os trens por lá possuem serviço de bordo, e nesse trem eu tomei um café horrível e comi algumas bolachinhas que tinha levado, mas nada de almoço.

27/02 – 18h40 – Glasgow (Escócia)

Chegando na estação de Inverness, às 14h42, tive que sair correndo desesperada o mais rápido que consegui com minhas malas porque meu embarque para Glasgow era as 14h47. Não desejo a ninguém o medo de perder um trem em um país desconhecido quando você tem mais um monte de conexões pra fazer, que aflição.

Passadas as paisagens estonteantes e começando a bater um cansaço e uma fome desgraçada, o trecho até Glasgow foi longo e desconfortável, pois sentei no sentido contrário ao fluxo do trem, e ainda por cima ao lado do banheiro. Eu tentava cochilar mas acordava assustada com cada pessoa que batia a porta do banheiro.

Agora percebam a desgraça final: cheguei na estação Glasgow Queen Street às 18h10, mega horário de pico, e às 18h40 tinha que pegar a próxima conexão na estação Glasgow Central. O detalhe é que não havia conexão entre as duas estações, ou seja, tive que sair e pegar um táxi até o próximo embarque. Mais uma vez aquele medo horrível de perder o trem.

27/02 – 21h26 – Warrington (Inglaterra)

Ok, consegui embarcar em Glasgow para a próxima parada que seria em Warrington. Ah, isso tudo sem ainda ter almoçado/lanchado/jantado ou qualquer coisa do tipo, porque as conexões era rápidas e não dava tempo de comprar nada decente.

E como desgraça nunca é demais, ao tentar entrar nesse trem, com uma mochila de 7 quilos nas costas e uma de 8 quilos no peito, fui tentar puxar minha mala degrau acima para dentro do trem e o que aconteceu? Caí deitada porque né, as mochilas me puxaram pra trás e não teve santo que segurasse.

Nesse momento deu uma vontadezinha de chorar e até pensei que deveria ter pago um pouco mais por uma viagem menos longa. Mas ok, levantei, larguei as duas mochilas e coloquei a mala pra dentro.

27/02 – 22h04 – Chester (Inglaterra)

Esses trens normalmente possuem um espaço destinado para malas, mas dei o azar de que meus assentos eram sempre longe dos compartimentos específicos. Ou seja, pouco antes de embarcar eu tinha que me levantar para ir pegando as malas e ir me preparando para descer sem atrapalhar todo mundo.

Uma coisa complicada nesses trens é que eu não desembarcava nos destinos finais, ou seja, eu tinha que ficar muito ligada pra entender a estação anunciada.

Quando desci em Chester para pegar o último trem da saga para Holyhead, eu já estava oficialmente com apenas uma rodinha na mala e também tinha um ferro dela soltando e fazendo um barulho absurdo. Nem preciso dizer que virei chacota de um grupo de adolescente bobalhões, que ao invés de me ajudarem ficaram rindo de mim, haha. Viram só? Seres humanos são iguais em qualquer lugar do mundo!

28/02 – 02h30 – Holyhead (País de Gales)

Quando eu desci na última estação de trem eu sinceramente não sei como eu ainda estava de pé, carregando peso o dia todo sem ter comido nada além de uns salgadinhos e bolachas. Cheguei no porto de Holyhead às 00h05, e a balsa para Dublin seria só as 02h30. Sim, meus amigos, andei de balsa/ferry, ou vocês achavam que eu tinha ido do País de Gales pra Irlanda a nado?

Ali as coisas já começaram a melhorar um pouco, pois o saguão de embarque lembrava um aeroporto (mas algo tipo Salgado Filho que fica tudo fechado na madrugada). Quando fiz o check-in e ouvi eles falando em despachar bagagem foi a maior graça alcançada do dia. Me livrei das malas, fui reto pro banheiro da sala de espera, fiz xixi e escovei os dentes. Eu já era uma pessoa feliz de novo.

Aí nós entramos em um ônibus que nos levou até o Titanic. Tá, não era o Titanic, óbvio, mas meus olhos de menina do interior brilhavam ao ver aquele navio, todos aqueles carros, caminhões e ônibus entrando nele e tudo mais.

Quando entramos para a parte das pessoas e eu vi um restaurante, sofás e muitas poltronas, decidi que se o barco afundasse antes mesmo de sair eu já seria a pessoa mais feliz do mundo.

Comprei um sanduíche, um chocolate quente e uma água. Achei um sofá que seria todinho meu e lá me instalei. Esse seria o meu lugar até as 05h30 da manhã, quando chegaria em Dublin. Deu pra dormir um bom sono e adorei a experiência, nem dá pra sentir o movimento da balsa!

28/02 – 05h40 – Dublin Port (Irlanda)

Ao desembarcarmos no porto de Dublin, super achei que teríamos que passar por imigração, mas não teve nada de nada. Peguei a mala e estava no estacionamento do porto. Dali peguei um ônibus para o centro, desci perto de um ponto de táxi e rumei para o apartamento em que meu primo mora, onde eu ia ficar nos primeiros dias. Cheguei lá por umas 06h30.

O que acontece quando você compra a passagem mais barata 2

Bom, resumindo tudo: dois ônibus, 5 trens, uma balsa e 2 táxis depois eu finalmente cheguei no meu destino, levando cerca de 20 horas de viagem.

Se valeu a pena pelo preço? Olha, mesmo com tanto perrengue a pão dura aqui ainda prefere pagar menos, então digo que valeu sim! Se essa for a sua vibe também, esteja preparado para o cansaço, as correrias e a bunda quadrada. Depois disso, boa viagem!

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