O senhor na estação de trem e uma lição de vida

No dia 27 de fevereiro, deixei a Ilha de Skye rumo a Dublin. A mudança de roteiro foi de última hora, então acabei comprando a passagem mais barata, o que ocasionou em um trecho de 20 horas de viagem que poderia ter sido feito em duas horas de avião – se eu não fosse tão pão dura, claro. Primeiro um ônibus, depois cinco trocas de trens, um táxi, uma balsa, mais um ônibus e mais um táxi.

Mas antes de passar por toda essa saga, voltemos à primeira estação de trem lá na cidadezinha de Kyle of Lochalsh. Quando desci do ônibus, pedi informações pra uma senhorinha sobre como chegar na estação de trem. Ela me deu as coordenadas e falou que era pertinho. De fato, era perto, mas quando se está com uma mala de 33 quilos + uma mochila nas costas com 8 quilos + uma mochila no peito com 7 quilos, dois minutos de caminhada se tornam um pesadelo, acreditem.

Cheguei na tal estação com alguns minutos de antecedência para o primeiro trecho de trem. Ao me aproximar do ponto desejado, vi que um senhor alto me olhava sorrindo. Não dei muita bola, porque sabia o porquê daquilo: minha mala estava se entregando, coitada. Nem 10 dias de viagem e as rodinhas já estava quase no fim e tinha um ferro arrastando no chão e fazendo uma barulheira constrangedora.

De fato, o senhor me olhava por conta da mala um tanto quanto chamativa – na verdade, a personagem completa, no caso euzinha, chamava atenção com aquele casaco meio rosa meio bordô, carregando quase 50 quilos, pouco menos do que o meu próprio peso.

Mas, mais do que isso, o senhor desconhecido me olhava porque estava louco para puxar conversa mesmo. Conforme fui me aproximando, vi que a expressão facial dele se formava para me perguntar algo. “Where are you from?”, saiu questionando ele em um inglês incrivelmente claro para a região que estávamos. “Brazil”, disse eu – escrevi em inglês porque essa foi a minha resposta pra ele, assim mesmo, com z.

Ele me olhou um pouco espantado e saiu falando que ele nunca diria que eu era brasileira, aí já emendou que gostava muito de estudar genética e perguntou quais eram minhas origens. Expliquei que na região onde eu nasci tem muito sangue alemão e italiano, alguns dos quais predominam o meu DNA, inclusive.

Aí então ele fez uma cara de “ah bom, agora tá explicado”, e disse que devia ser por isso que eu estava carregando tanta bagagem comigo. Fiquei curiosa com a afirmação e resolvi até tirar as mochilas para ouvir com calma e menos peso, literalmente, o que ele tinha para contar. Ele disse que há registros históricos que mostram que os alemães eram um povo muito apegado aos seus pertences e que cada vez que iam se mudar era um navio pra eles e outro para as bagagens – tradução livre by Tuani, ok?

Vendo a preocupação nos meus olhos, ele disse que eu podia ficar tranquila que ainda tinha uns 40 minutos para o meu trem chegar. Dito isso, resolvi me permitir e deixar cair no papo simpático daquele homem de 70 anos, como também acabei descobrindo.

Dentre todas as coisas que conversamos, ele me perguntou quais eram os planos da minha viagem, me elogiou por viajar sozinha e disse para tomar cuidado nas cidades grandes, que nem sempre seriam tranquilas como na Escócia. Ah, também disse que eu precisava me livrar urgentemente daquela mala enorme se eu quisesse viajar mais tranquila durante 6 meses.

Aí então ele me disse pra lembrar sempre que existem duas perguntas que, pelo menos se você souber falar inglês, podem te levar longe e te ajudar a desbravar o mundo: “where are you from” e “where are you going?”. E, de fato, nossa conversa ali havia começado com esse simples “de onde você é?”, logo seguido de “para onde você vai?”.

O nosso diálogo foi mais ele falando do que eu, pois eu estava realmente contente de ter encontrado essa pessoa, e realmente queria ouvir o que ele tinha pra falar sobre sua experiência de vida. Aí então que ele veio com os dois pés pra me derrubar – emocionalmente falando, tá, gente. Não sei bem como foi que esse assunto começou, mas sei que ele terminou em lágrimas.

Ele disse pra eu sempre lembrar de três frases, o triângulo mágico, como ele costuma chamar. Vou escrever em inglês mesmo porque foi assim que a coisa me tocou:

“Everybody has a problem.”

“Everybody is special.”

“And everybody has a journey.”

Assim mesmo, afirmando que todo mundo tem problemas, que todo mundo é um tanto especial e que todo mundo tem uma trajetória única, o senhor desconhecido na estação de trem me arrancou uma lágrima e um sorriso. Talvez vocês lendo essa história não tenha graça nenhuma mas, pra mim, naquele momento, foi de uma importância extrema. De alguma forma ajudou a acalmar meu coração e me fez ver como a vida é bela e como eventos incríveis como aquele podiam acontecer se a gente se permitir.

Pra fechar, ele ainda me disse para não perder as esperanças em momentos de desespero. Positivo que era, me disse para ficar tranquila, pois sempre haverá alguém para nos ajudar a resolver uma situação. Que, por mais que as vezes o mundo pareça egoísta, sempre vai ter uma boa alma pra nos ajudar.

DCIM100GOPROGOPR2065.

Da janela do trem, me sentindo especial, esquecendo meus problemas e seguindo minha jornada.

Depois dessa enxurrada de ensinamentos ele se despediu e disse que precisava ir. Na hora eu fiquei parada olhando pra ele até ele sumir do alcance dos meus olhos. Juro, olhei para os lados pra ver se tinha alguém me olhando, se era alguma espécie de pegadinha ou se era só uma pessoa fazendo a sua boa ação do dia como faria um velho escoteiro.

Desde então, essas frases ecoam na minha cabeça a cada novo ser que cruza meu caminho. De fato, as duas primeiras perguntas sempre surgem para iniciar uma conversa. E, conforme o papo vai indo, o triângulo mágico se confirma e eu sempre tento encontrar em cada pessoa sua pitada especial, seu problema e sua jornada.

3 comentários sobre “O senhor na estação de trem e uma lição de vida

  1. Apesar de termos nos falado a pouco, se tivesse lido esta história antes, teria ficado bem mais emotiva e saudosa. É apenas o início da tua jornada e já está ficando meio apertado aqui dentro do peito, a cada história. I love you my baby, my darling.

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