O primeiro choro da viagem e com ele o sentimento de solidão

Acho ótimo conseguir fazer piada das “desgraças” que já me aconteceram nessa viagem. Na verdade foram apenas sufocos, nada que possa ser considerado uma catástrofe sem solução, mas é que quando você está sozinho num país estranho tudo pesa muuuuito mais. E então o post de hoje é sobre o meu primeiro choro da viagem e uma sensação de impotência que me levou ao sentimento de solidão.

Tudo começou no meu último dia em Edimburgo (o terceiro dia de viagem, sem contar a saga do voo cancelado). Estava eu ainda em estado de êxtase com a capital escocesa e, já manjando um pouco do local, decidi que no meu último dia iria acordar cedo para rever alguns lugares que já tinha visto e aproveitar alguns museus e parques que ainda não tinha ido conhecer.

Comecei a bater perna cedo mesmo. Pelas 8 horas eu já estava na frente do Castelo de Edimburgo, para tentar tirar uma foto sem um milhão de pessoas. De fato, não tinha ninguém, só as pessoas que trabalhavam no castelo chegando para o seu turno. Isso porque era cedo e porque o clima estava horroroso (na visão brasileira, porém normal para os escoceses). Consegui tirar algumas fotos que, posteriormente quando fui olhar, a maioria ficou destorcida por causa dos pingos na lente. Faz parte.

Segui descendo a rua principal, entrei em algumas lojas e decidi ir novamente, dessa vez com mais calma, ao cemitério do centro – bem gótica, eu sei. Queria ler sobre a história do cachorrinho Bobby, que já foi contada em algum filme que fez todo mundo chorar – em resumo, o cachorro pertencia ao coveiro, algo do tipo, e depois da morte do dono ficou pelo cemitério até ele mesmo morrer e ganhar um túmulo lá.

Naquele dia cinzento e em um lugar um tanto quanto sombrio, fui tirar uma foto com a GoPro e naquela função toda de tirar a luva, ligar a câmera, CATAPLOF, meu celular caiu no chão. Não foi uma queda horrível e na hora fiquei tranquilo porque ele tinha aquela película de vidro, que é pra ser o melhor milagre dos últimos tempos. Juntei o celular e tudo ok, nem um trincadinho na tela, só uns arranhões meio feios.

Daí fui apertar no botão pra ver as horas e TANANNNN, nada da tela funcionar. Até apareciam umas luzes, mas dava pra ver que algo estava muito errado. Eram cerca de 9h3o e antes de mais nada eu precisava dar um jeito de arrumar esse telefone, porque as 17 horas eu teria um trem para Glasgow e se com GPS eu consigo me perder, imaginem sem. Sem contar que eu só ficaria um dia em Glasgow e depois iria me enfiar no fim do mundo, onde com certeza não encontraria conserto pra celular.

Respirei fundo, pensei no que fazer e saí do cemitério pensando que eu já havia visto alguma placa por ali de conserto de gadgets. Atravessei a rua, olhei para o lado e lá estava ela, a loja que eu havia visto. Fiquei feliz de perceber o quão atenta eu sou, mas um pouco triste quando vi que era uma loja que consertava aparelhos da Apple – o meu é um Samsung.

DCIM100GOPROGOPR1904.

O tal lugar onde tudo aconteceu e minha incrível cara de paisagem fingindo que nem tava desesperada nada.

Totalmente sem saber o que fazer, entrei na loja mesmo assim, já segurando o choro. Esperei atendimento e, como já esperava, eles não poderiam me ajudar. Porém, com toda a boa vontade do mundo, me deram um mapa e me explicaram onde tinha uma loja autorizada da Samsung. Explicaram direitinho e até me falaram qual ônibus pegar.

Saí da loja chorando e fui até a parada de ônibus. O desespero começou a pegar, eu precisava consertar aquilo e logo. Sequei as lágrimas contidas, peguei o ônibus e fui em direção à minha única esperança. O acesso foi bem rápido e bem como haviam me explicado. Logo achei a autorizada Samsung, entrei e peguei uma ficha para atendimento.

Quando o rapaz me chamou, expliquei a situação e ele me perguntou que modelo de aparelho era aquele. Ao que eu falei “J5”, ele logo já foi dizendo que esse modelo não é produzido no Reino Unido e que eles não teriam aquela tela pra trocar. Perguntou de onde eu era e disse que só conseguiria conserto quando eu voltasse pro Brasil.

Foi aí que eu não segurei as lágrimas. Alguns podem dizer que foi uma tática para o cara ficar com pena de mim, mas foi desespero mesmo. Chorando eu tentava explicar pro moço que eu iria ficar 6 meses na Europa, que não era assim fácil voltar pro meu país e arrumar.

Comovido, ele pediu um minuto pra falar com o técnico e ver o que poderiam tentar fazer. Quando ele voltou, me falou que tentariam abrir o aparelho e ver o que tinha acontecido, mas sem garantias. Ele me pediu pra voltar dali a duas ou três horas.

Agradeci mil vezes o moço, sem nem saber se iria dar certo. Saí da loja e avistei uma parada de ônibus. Fui até ela, sentei e chorei, chorei e chorei. Alguns podem pensar “nossa, que menina exagerada” ou “nossa, as pessoas não sabem mais viver sem celular mesmo, hein”. A grande questão não é ficar sem celular ou o quanto eu iria gastar pra arrumar ou comprar um novo. Naquele momento eu me senti desamparada e sozinha, e deu até vontade de jogar tudo pra cima. Como é que em cinco dias tinha acontecido tanta zica, hein?

Pensei em como seria diferente se meu namorado estivesse comigo ou em como seria tão mais tranquilo se isso acontecesse em qualquer outra viagem de férias pela praia. Meu celular já caiu taaaantas vezes no chão, e aí decidiu pifar numa quedinha boba, porém na Escócia? Me conformei que isso só podia ser parte do combo zica, limpei as lágrimas e o ranho que escorria pelo nariz e resolvi seguir meu dia de passeio. Eu precisava superar aquilo, eu precisava esquecer para continuar curtindo meu último dia em uma cidade tão linda.

Abri meu mapa, peguei meu bloquinho onde havia anotado os pontos que queria visitar (nada como um bom papel e caneta, né) e segui para o meu próximo destino. Visitei dois museus que eram perto de onde eu estava e até consegui ver o lado bom, que eu estava exatamente na região das atrações que eu queria ver.

Por sorte eu estava com meu relógio de pulso comprado no Paraguai, item que agora não dispenso nunca. Com ele conseguiria controlar meus horários e a hora que tinha que voltar na assistência técnica.

Fiz vários passeios e me dei o direito de entrar numa Primark (uma loja maravilhosa estilo Renner só que com coisas realmente baratas) para afogar as mágoas. Me dei de presente vários batons e outros cosméticos – mas nada acima de 3 libras, ok?

Voltei até a loja e o moço pediu mais meia hora. Saí para almoçar em um Subway próximo e descobri que eles também têm sanduíche de frango teriaki! Achei ótimo, comi e voltei pra buscar meu telefone consertado. SIM, eles conseguiram arrumar e eu quase pulei o balcão pra abraçar os funcionários da loja.

Não vou entrar em detalhes sobre as 80 libras – não façam a conversão, por favor – que tive que desembolsar no fim da história. O que importa é que eu terminei um dia agitado com mais alguns passeios e um pouco de experiência em resolver pequenas crises.

 

A lição que ficou foi de que eu até posso chorar e me descabelar, mas que é preciso deixar o calor do momento de lado e pensar racionalmente, mesmo quando as coisas parecem não ter solução. Sempre há uma luz no fim do túnel, e esse é um assunto para um próximo post.

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